Quem dera fosse futebol [ou 2 segundos, 6 meses, algumas vidas]

Um dos momentos menos mágicos. Um vácuo. A respiração presa.

Ele não sabia como encarar aqueles poucos segundos que sucediam um gol sofrido pela sua equipe, quando no estádio. Não entendia aqueles momentos em que dava pra ouvir o zumbido da eletricidade dos refletores. Aquele nada. Até que a torcida voltava à vida, pra xingar, chorar ou tentar mudar a história.

Era, pra ele, aquele silêncio que veio depois do bater da porta. Quando tudo o que se ouvia era o ruído longe da torcida adversária. Do elevador indo embora.

Lembrava do som do sinal do telefone que ele manteve junto ao ouvido depois que a ligação foi desligada.

Ele dizia que o que queria mesmo fazer era que o tempo, como a gente conhece, parasse. Ele queria era abrir o peito e mostrar o estrago do katrina que tinha acabado de passar.

Enquanto o jogo não acabava, ficava pensando na foto que ia sair na capa do jornal do dia seguinte. Era certo: não seria daqueles segundos de total nada. Seria da festa do torcedor visitante, do carrasco sem capuz. Ou pior: seria um retrato dele, lá, com aquela inércia estampada. E que isso seria sua biografia definitiva.

Ficava pensando do que ele se lembraria quando um outro campeonato começasse. Se aqueles segundos de completo nada voltariam a acontecer e iriam tirá-lo do sério, do centro.

Ele dizia que deixaria a porta sempre trancada. Que não voltaria ao campo. Que nunca mais ligaria pra não ter o zumbido do sinal do telefone de novo ecoando dentro do peito.

Mas a torcida voltava, depois de alguns segundos, a cantar. A porta do elevador se abriria novamente a poucos metros da sua porta. O telefone voltaria a trazer notícias de outros tempos.

Ele me diz que hoje até gosta quando sente o frio na espinha do gol adversário. Porque sabe que, dali em diante, uma história diferente vai ter de ser escrita.

Diz que nunca gostou mesmo do 0 x 0.

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