Ipê roxo e lava-pé

Entre Uberaba e Conceição das Alagoas descanso a coluna num frondoso pé de flamboyant, as flores alaranjadas se espalham pela grama úmida orvalhada. A temperatura do meu corpo é exatamente 38,9° e mesmo enrolada num cobertor xadrez de lã, daqueles que esquentam e pinicam, bato o queixo de frio.

Avisto minha mãe ao longe, vestindo uma bata de algodão cru e com os cabelos trançados, ela anda rápida e cuidadosamente pois carrega nas mãos uma xícara fumegante.

” Um chá com limão pra tirar essa nhaca, e não adianta fazer careta. Alegria, filha”

Estendo a mão e pego a xícara como quem procura algo no nada, ou o par de óculos ao acordar, tateando e não necessariamente vendo; com aquela sabedoria herdada na infância, me ponho a assoprar o chá pra não queimar a língua.

A temperatura sobe, 39,4°, e mesmo assim deixo de lado o meu corpo quando um emaranhado de pensamentos e sentimentos e vontades transformam meu coração num trabalhador esforçado, bombeando sangue feito doido, desassossegando. Transborda num choro urgente e solitário, só para a árvore ouvir.

E então a moral da história, em forma de lava-pé pica meu dedo bem doído, num movimento de espantar a formiga eu derramo chá e me queimo. A dor faz voltar a atenção ao corpo, à sombra do flamboyant, ao meu cobertor xadrez, ao sangue e corte da mordida, à doçura que é a minha mãe; que na impossibilidade de cerzir e remendar meu coração, preparou para o meu corpo necessitado de atenção um chazinho de ipê roxo, limão e mel.

 

– 2009

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