Kerouac-Dodge

Esse é um refugio não contra, mas a favor das tempestades, é no céu aberto e embalo da estrada que o mundo se faz pequeno quando imenso. Onde o tempo e amor desatam na Pequena Nuvem de Magalhaes e livros de astronomia, no pingado em um banco de posto de gasolina esperando o ônibus retomar seu trajeto, nessas longitudes e latitudes que me acompanham e no carinho da estrada, a cadência e paciência das suas curvas sinuosas, solitárias retas que aproximam A e B no mapa e prendas amorosas do destino.

O fazedor de tormentas está naquele abraço tímido e sem jeito embaixo do céu imenso quando disseram com toda a calma do mundo que eu não sou um radio quebrado ‘você não precisa de conserto, minha querida’. Na repletude de momentos que a vida presenteia de parada em parada, em cada apeadeiro de cada cidade, de todos os países.

Eu me lembro do vestido amarelo e minhas duas escudeiras sentadas no chão do Conjunto Nacional, cantando Beatles para noite e dizendo para quem quisesse ouvir que a Avenida Paulista era só nossa, dos silêncios carinhosos da minha irmã em incontáveis situações e era exatamente isso que eu precisava. Eu me lembro de escrever uma carta nunca enviada ao meu amante, sentada embaixo da castanheira fazendo mimos num felpudo cachorro montanhês. Lembro-me dum amor novo desabrochando refletido nas luzes de um castelo, por ironia ou bom-destino foi bem ali que ele morreu. Lembro-me dos meus pais com olhos marejados me abraçarem mais de uma vez em aeroportos, fortes e doces para suportarem comigo qualquer revés que a vida jogasse na minha frente. Lembro-me da minha amiga sendo apresentada a mim, quando ainda éramos estranhas uma a outra e mal sabíamos como nossos cafés semanais nos seriam preciosos respiros de alívio e futuras saudades.

Lembro de julgar-me maluca e inofensiva  em meus devaneios românticos, perder e encontrar caminhos inimagináveis dentro e fora de mim mesma. De ver a força da fragilidade completa diante da barbárie e conjurar poesia em esquinas escuras e sujas.

Lembrou-se de sonhar com o Japhy Ryder e ele aparecer magicamente em outro livro na noite seguinte para tomar um café com a Annalee. Perguntei sobre os poemas de Han Shan e como foi subir sozinho a montanha, qual foi a sensação de desatar-se das amarras do mundo e contemplar o vivente com o coração cheio, com sincero amor. Ele me sorriu e disse ‘ não há remédio para o amor a não ser amar mais’.

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