batom, dor, revolução e avareza…

Um dia a gente é amor; outro dia, mertiolate.

Nos dias de festa, o vidro de remédio fica na gaveta, ninguém o leva para o baile.

O amor sai para passear, o curativo não! Esse só se usa na topada; quando a gente sangra ou se esfola!

Na raia da alegria, nas noites de vestido longo, ou nas tardes de sol, o chá de boldo é de ontem ou pra amanhã, nunca de agora!

Há quem confunda amor com remédio, mas nós já sabíamos desde a década morta que aquilo que a rapaziada mais precisa é de alimentos, não de remédios.

Na rua, ombro a ombro, com paus e pedras, partindo para cima da polícia, estilhaçando as vidraças, os meninos vestidos de negro declaram amor aos que sequer conhecem.

Sozinha no quarto, depois de menstruar, a menina se olhou no espelho e colocou as mãos em concha junto da barriga. Não podia apertar o vazio. Ela suspira em voz alta: o que eu mais quero é ser feliz!

Diante da janela ela teria mais o que fazer.

Da janela, ela poderia ver o garoto que, sozinho, na rua, acelerava o passo — na contramão da confusão — para não ser confundido com os que protestavam. Ele diz em voz alta: eu só quero chegar em casa!

Quem dera tivessem se fitado, poderiam trocar suas miúdas avarezas…

Mas o que mais poderia ela fazer, além de pintar a linha do horizonte no espelho com o próprio batom?

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