Vida longa e brava ao Correio Luizense (ou das propriedades da coalhada)

Com alegria eu soube que o Guilherme — poucos dias antes de zarpar com as malas para uma temporada longa em Berlim — abriu outra janela e arquitetou o Correio Luizense.

Logo correu a notícia de que ele juntou um punhado de gente craque pra costurar uns remédios em palavra escrita.  E disseram com voz grave: “no texto inaugural… ele te cita”. E quando eu falei “que legal”, como se eu não tivesse feito jus à notícia, o mensageiro repetiu sublinhando com um franzir de testa: “ele te cita!”

Enfim, li o texto e confesso que achei nele algo estranho. Embora estejam ali citados o meu nome e o de meu pai, parecia mesmo que a homenagem não era exatamente aquela que foi explicitada por escrito. Um texto amargo, como ele mesmo assumiu, não poderia ser assim tão óbvio.

Numa amizade de longa data já foram algumas homenagens recíprocas, umas linhas e muitas ações-dedicatória. Mas esse caso é inédito.

Antes de tudo é preciso explicar: Guilherme não é um acadêmico. As citações para ele não são uma moeda corrente, nos textos guilherminianos as citações nunca são uma âncora erudita, nem mesmo um distracionismo fortuito e venal. Até nas suas páginas mais firulentas, toda e qualquer menção às ideias/fatos e que tais de outrem são uma genuína declaração:  “eu te tenho cá dentro”.

Toda vez que leio algo do Guilherme sempre surge por entre as linhas uma boneca russa que vai aos poucos regurgitando seus entes queridos, odiados, benquistos, mal-tragados…

Mas, como disse, confesso:  desta vez foi diferente! Ele de fato articulou bem — e do modo costumeiro — os adjetivos de “velha casa da Patriarca” e “do eterno apartamentinho da Minas Gerais”. Dessa maneira, sinalizou o seu inconfundível tom “lareira“, afinal, tudo que o Gui escreve tem aquela quentura de fogueira, de um lugar e de um convite pra se esquentar no frio.

Mas algo ali soou como uma canoa sem leme, como uma sabedoria com defeito. É como se ele quisesse procurar uma síntese e ela não coubesse dentro dele. Algo que não pudesse ser transmitido… não em palavras. Definitivamente, não há síntese entre a fé cega das palavras de meu pai e a faca amolada das minhas recomendações para que o meu amigo se paute sempre e em tudo pelas experiências.

Não há síntese possível, pelo menos não em palavras. Ao justapor esses dois ensinamentos é como se o Gui estivesse me pedindo desculpas por ser mais amigo do meu pai do que meu. Se fosse possível, não há dúvidas, seriam contemporâneos. Dois pretos velhos!

E aqui é preciso que eu diga que já faz muitos meses que eu me ausentei da lide da escrita. Minha afonia perante o teclado teve uma contrapartida nas ruas, com fé cega no fio da minha faca amolada, esfolando todos os laivos do meu ceticismo venho exercitando um desapego em relação a mim mesmo. Ou, melhor dizendo, tenho me encontrado melhor fora de mim.

E quando o Gui menciona falta de coragem para ir até a rua xingar uns e outros carcamanos de farda, fico mesmo sem entender direito. Sinto uma vontade danada de dizer a ele que ele está errado. Que o que lhe falta não é coragem, que talvez sequer coragem seja necessária nesse jogo juvenil. Sinto um porção de vergonha por não conseguir explicar de um modo sucinto ou inteligível que o que mais nos falta é não ter aquilo que temos em demasia.  Mas sei que qualquer coisa que eu escreva parecerá escolástica, doutrinária, professoral, presunçosa. A única maneira de não o ser seria ter optado por não escrever.

Mas, se alguma exatidão sobrevive nesse meu esforço, algo que soará honesto nessa minha iniciativa de escrever ao meu amigo se resume no conceito de que o que mais importa aqui é aquilo que devemos desaprender para poder agir, logo não poderia eu querer ter a vaidade de ensinar alguma coisa. Mas como escreveu certa vez o senhor Antonio Conte “o Gui tem ideias próprias na maior parte dos temas e às vezes, questão fechada. No amor quase sempre vai de cabeça “por una cabeza todas las locuras.” Nesse dias também falamos de amor. Os mais velhos tem a veleidade de que a sua experiência de vida vale para os outros. Por isso, disse-lhe que o amor, como certas bebidas, requer maturação, requer paciência, requer sublimação e espera. Ele concordou de pronto“.

Longe de mim questioná-lo e muito mais longe de mim reivindicar os meus anos a mais em relação ao Guilherme, que — todo mundo sabe — é o nosso caçula-mais velho.

Mas como eu poderia ficar inerte diante das verdades que ele me diz? “É meio-dia em nossa vida” e nunca a solidão esteve tão distante de mim como hoje, nesses dias em que me dediquei a esse esporte no qual o medo sempre surge ao lado do medo de outra pessoa e sempre instantes antes de uma reviravolta imperativa em que esses dois medos se erguem um nas costas do outro e se transformam juntos em seu reverso, numa coragem esfomeada e solidária.

Só seria plenamente coerente agora se pudesse dizer de modo claro que seu pai, Antonio Conte, talvez não devesse ter levado tão a ferro e a fogo a sua própria doçura ao lhe citar Schiller dizendo-lhe que “não é a carne e o sangue, e sim o coração, que nos faz pais e filhos”. Sempre é possível subverter a citação. Não há carne nem coração que não estejam sempre enlameados de sangue.

Isso me faz chegar ao ponto de partida desse carta quando, após ler o texto do Guilherme, me lembrei que meu pai sempre gosta(va) de repetir com tom de rapsódia o modo adequado de se fazer uma coalhada. Sempre acentuou o fato de que não se deve consumir a colhada toda, é sempre necessário deixar um pequeno restinho para servir de motor biológico para a próxima coalhada. E o mesmo ensinamento — essa espécie de tocha olímpica prometeica — ao trocar a água do aquário. “Não tira a água toda, Rodrigo, para não acabar com o ecossistema…”

Por isso, a despeito (e em nome) dos cabelos diferentes, das fotografias irreconhecíveis de anteontem, das pessoas ausentes e presentes, o que se pode desejar do alto desse miradouro Luizense é vida longa e brava ao Guilherme Conte.

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