Uma mãe para esbofetear Saddam

2006, hemisfério sul, num dia de primavera, numa varanda, defronte ao mar, diante de um vai-volta de poodles e madames, estive confortavelmente instalado numa cadeira de praia.

Meu olhar estava vacilando, débil, marejado por uma tristeza imensa. Ao meu lado, um copo com maracujá e destilado me convidava para a alegria fácil; o sol era aprazível mas, para mim, sua luz parecia acre e sem sentido.

De repente, estava ali absorto. Tratava-se de uma tristeza daquelas irremissíveis. O jornal trazia a notícia do julgamento de Saddam Hussein. A foto o trazia despido das vestes de liderança militar. Ele vestia uma camisa branca, submetido ao decoro ocidental de um terno.

Balbuciei um pouco sem ânimo: “2 mil e 2 mil anos e não somos capazes ainda de diferenciar justiça de vingança”. Sem que nenhum crime possa ser redimido, Saddam ficou dependurado no fio mal amarrado dessa civilização fracassada.

***

2014, numa sexta-feira santa, uma manhã baldia de recesso me levou até a banca de jornal com a curiosidade de saber o que diziam da Copa, pr’além dos obituários óbvios do Garcia Márquez (do diz-não-diz-de-fidel-da-magia-e-do-realismo).

O silêncio ufanista do jornal escondeu as provas forjadas pela polícia para incriminar a pobreza de um desabrigado no RJ, escondeu as agressões soberbas dos jovens detidos em SP dias antes. Mas um canto de página diz que na Baixa do Sapateiro, na favela da Maré, um menino de 14 anos matou a facadas o primo de 4 porque ele estava alegre demais.

Por algum laivo de lucidez o repórter contabilizou esta como a terceira morte desde que o exército ocupou o local há duas semanas. O deslize ficou na preocupação em deixar claro que o garoto tinha “antecedentes criminais” por furto. Dizem que explicar conforta, mas esse conforto não explica nada. A avó dos meninos pede justiça. Para quem?

Para quem? A página ao lado estampa a foto que me faz recordar de Saddam. Alguém blefou com a carta de Tarot e o enforcado se salvou. No Irã, o assassino de Abdolah Hosseinzadeh toma uma bofetada de perdão da mãe de sua vítima segundos antes de os carrascos chutarem a cadeira que o mantinha vivo.

Perdão? O governo quer reduzir o número de execuções e estimula as famílias das vítimas a perdoarem os criminosos? Essas famílias recebem dinheiro dos perdoados?

Que bofetada vingará as crianças da Maré?
Que bofetada trará Saddam e suas vítimas de volta?

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