O soneto 30: a sombra que o fogo não faz

é
sem
cor
o
meu
cor

ação?

não.

desbotado,
abotoado,

é esse nó
de aço

que eternizou a distração
“premiou” minha inação

deixou para fora
para sempre? –
aquele sanhaço

amor amou demais,
alegou cansaço?

ou fui eu quem ficou
para fora da cor
para fora do amor?

era pássaro
sou passado …

No pequeno apartamento em que ele morava havia 6 lâmpadas. E houve tempo em que a luz era estridente a tal ponto que até os cantos mais escondidos eram iluminados. Era tanta luz que seu lado mais oculto não era pouco conhecido, a única forma de permanecer invisível era que este seguisse sendo deliberadamente ignorado. Morava sozinho e conhecia de cor cada caixa onde guardava cartas: aquelas recebidas, da época em que ainda se enviava cartas; as jamais enviadas, da época em que começou a haver motivos para o cálculo; e as de hoje – sequer escritas – que fatalmente não seriam respondidas. Cada pó sobre pó que a falta de limpeza do cômodo acumulava tinha seu nome e sobrenome. Em resumo, houve tempo para a luz e para algum conhecimento, sobre si e a respeito do mundo.

Mas da mesma maneira com que muitos livros da prateleira se tornaram obsoletos por nunca terem sido abertos ou por terem sido folheados somente até a metade, muita daquela verdade sobre as coisas – intuída, sentida, namorada – foi caindo na penumbra. Uma a uma as lâmpadas foram se apagando. A que restou, solteira, foi sendo transferida de lugar, conforme os humores e as necessidades da casa.

***

Cansado de ler no escuro do quarto, foi até a cozinha contígua e subiu numa cadeira e desrosqueou a lâmpada com a ajuda de uma toalha, para não queimar a pele dos dedos.

Depois, apeou o corpo ao centro da cama, esticou os músculos e fez uma ponta de bailarina para alcançar o teto. Equilibrado na oscilação das molas do colchão velho, conseguiu acender a lâmpada e se deitou para seguir na leitura dos haikais de Bashô, embora aquele esforço contradissesse a calma zen dos versos sobre bambus e luares refletidos em poças d’água.

Na cama, o sol do meio dia dos 100 watts de tungstênio incandescente; na sala e na cozinha, anexas, uma luz débil filtrada pelo tapume de vidro que as separava do quarto.

Ao buscar o cinzeiro que esqueceu na mesa da cozinha, acendeu um cigarro. Como a luz vinda da lâmpada (agora alojada no quarto) chegava até ali apenas como uma mensagem remota, a silhueta dele com o cigarro na boca era um desbotado teatro de sombras. Embora brandas, foi possível vê-las na parede, desenhando um rosto e, brotando dele, o reto bastão do cigarro e, em sua ponta, a ondulante sombra que a fumaça também era capaz de projetar na tela branca.

E ele ficou ali, brincando com a imagem, dançando com a mão direita, deslumbrado com o serpenteio que a sombra da fumaça descrevia na parede, até que lhe ocorreu algo óbvio que lhe surgiu, porém, como uma revelação: o fogo não tem sombra!

Voltou a acender outros cigarros e, atento ao isqueiro e à parede, ficou entre maravilhado, decepcionado e reflexivo frente àquele fato cientificamente banal: o fogo não tem sombra!

***

Quando abriu a geladeira, se entreteve ao ver a polpa do indicador queimar no gelo – a tênue umidade de sua mão congelou-se – e, pouco a pouco, percebeu a carne do dedo aderindo à parede do congelador. Que absurdo de caminhos opostos e o fim ser sempre o mesmo! Riu, acusou a si próprio de se alimentar com tolices, mas ao sentir na pele a queimação que o gelo causa, ao imaginar a insolação que um homem desprevenido apanharia até mesmo sob a exposição prolongada ao sol da meia-noite nos pólos, pensou que na verdade não podia se culpar por ter tido a vida que teve.

Talvez lhe faltasse o poder de síntese de um único verso de Camões. “Amor é fogo que arde sem se ver”? Ora, ao ser brusco, usou de força e, no movimento para libertar o dedo, arrancou um pedaço da pele e viu o branco do gelo se bordar com uma gota de sangue. O que para os poetas era rico ao ser oxímoro, paradoxo ou outra palavra difícil com x, letra na qual se incrustava um desafio venturoso, uma batalha, uma peleja de algo vs outro algo, para ele surgia como mero armísticio, guerra perdida para si mesmo antes mesmo de começar.

Sentia uma infinita impotência diante do amor. O amor que para ele nunca chegou a ser tragédia se tornou a farsa das repetições. Repetia-se por amor ao passado? Não. Ele se defende ao dizer que nunca se tratou disso. Tudo era, senão, amor ao futuro, o futuro que ele viu entreaberto na primeira vez em que amou de verdade mas logo deixou escapar.

Ele jamais formulou a ideia a ponto de nomear o que sentia com palavras exageradas: um sentimento amoroso pós-apocalíptico? Era só do fardo das perdas irremissíveis que ele queria se livrar, nada de muito complicado. Trocava em miúdos e resumia tudo como uma grande noite não dormida. De fato, todas essas situações se deram sob efeito da insônia. Mas não a insônia abordada no auge da noite, mas o momento de embriaguez e fotofobia que a insônia traz às 11h da manhã.

Aquilo com certeza (não) era amor. Ele via tudo, tinha plena faculdade, pretensamente discernia cada detalhe daquele momento que vivia e isso fazia de todos os seu sentimentos algo integralmente póstumo. A clarividência excessiva sobre os erros e acertos do passado, tolhia o viço da novidade de cada gesto em sua manifestação espontânea. Fez da autocrítica uma infeliz maneira de desencantar o futuro.

***

Mas, num sábado de manhã, foi capaz de acordar cedo e viu na janela um convite. Foi até a rua e lá o sol era quente e manso. Aquela quentura agradável fez – em pouco menos de 15 minutos de caminhada – a lembrança de sua lâmpada solitária em casa se tornar um estúpida mesquinharia. Aquela luz abundante fez ele ter vergonha da própria avareza. Vinha sendo duro demais com os outros, conivente demais consigo. Aquele sol ao mesmo tempo inesgotável e confortável o fez ser mais generoso com as cinzas dos seus projetos falidos; o fogo com que se doou a cada ideia, com que se lançou a cada amor novo era uma partícula daquele sol, e era inevitável que a chama de suas paixões não tivesse tempo para ser ao mesmo tempo fogo e sombra.

A sombra – aquela escura projeção das coisas findas, cinzas – era apenas isso, registro morto, contingência daquilo que se tornou finito. Mas a luz, ela própria, ou algo dela, mesmo que remotamente apreensível, estava ali, perene, disponível em sua doce e diligente eternidade. Se o que lhe mantinha vivo era justamente aquele fio de permanência nas suas impermanências, o que o mantinha vivo agora, mais uma vez reapaixonado por ela, era justamente aquele fogo sem sombras.

Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado,

Afogo olhar em lágrima, tão rara,
Por amigos que a morte anoiteceu;
Pranteio dor que o amor já superara,
Deplorando o que desapareceu.

Posso então lastimar o erro esquecido,
E de tais penas recontar as sagas,
Chorando o já chorado e já sofrido,

Tornando a pagar contas todas pagas.
Mas, amigo, se em ti penso um momento,
Vão-se as perdas e acaba o sofrimento”

Soneto 30 – W. Shakespeare

broken

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s